Pré-candidato a deputado estadual neurodivergente defende Educação para Jovens e Adultos (EJA) especialmente para autistas
A vida escolar dos diagnosticados com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Goiás exibe contornos peculiares. No estado, mais de 48% dos adultos portadores de TEA maiores de 25 anos ou não possuem instrução formal, ou não concluíram o Ensino Fundamental. Esse quadro levanta debates e faz emergir propostas de tratamento adequado à questão. Entre elas, ganha espaço crescente a elaboração de um programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA) especialmente para autistas.
O dado impressiona ainda mais por conta do contraste que surge a partir da comparação com o bom desempenho do estado quanto à taxa de escolarização de crianças autistas no ensino fundamental. Relatórios oficiais sobre o assunto apontam para uma causa estrutural mais relevante: a escassez de profissionais especializados, sobretudo, a partir do ensino médio.
De acordo com números do último Censo Demográfico, cujos resultados específicos para grupos populacionais especiais foram divulgados em maio de 2025, entre 92% e 95% das 9.820 crianças goianas diagnosticadas com TEA entre 5 e 9 anos encontram-se regularmente matriculadas. E mais: a adoção da modalidade de ensino inclusivo parece ser realidade já assentada. Apenas 4,5% desse universo de discentes está matriculado em instituições de educação especial.
O gargalo, tanto em Goiás quanto em todo o Brasil, surge a partir da entrada no ensino médio. Após exibirem uma taxa de escolarização de crianças de 36,9% (maior que a média nacional, que é de 24,3%), a taxa de evasão entre jovens autistas explode em Goiás. Segundo números do último Censo Escolar, de 2025, apenas um terço dos adolescentes goianos diagnosticados com TEA permanece na escola.
As explicações para esse desempenho díspar parecem ser uma transição inadequada de ambiente educacional do ensino fundamental para o médio, provocada, sobretudo, pela escassez de profissionais especializados. Esse é o quadro apontado pelo Manual de Atuação em Defesa da Educação Inclusiva, elaborado pelo Ministério Público Federal (MPF). O documento menciona fragilidade na adaptação de atividades e aulas para alunos diagnosticados no Plano de Desenvolvimento Individualizado (PDI) dos estudantes.
Abandono silencioso
De acordo com o Relatório Técnico Educação Inclusiva, do Programa Educação para Todos, conduzido pelo Governo Federal, o cenário é de uma descontinuidade entre as séries iniciais, da rede municipal, e os programas de ensino médio, das redes estaduais. A dimensão desse hiato é de tal amplitude que o documento classifica a defasagem de ‘abandono silencioso’. Novamente, a causa principal apontada é o fato de as redes municipais de educação, responsáveis pelo ensino fundamental, estarem munidas de uma maior quantidade de profissionais capacitados para lidarem com os desafios da educação inclusiva.
EJA para neurodivergentes
Nesse contexto, a proximidade do pleito eleitoral deste ano e o surgimento de candidatos portadores de neurodivergências trazem à luz propostas que buscam conferir soluções estruturais para esses desafios.
Entre eles ganha destaque o empresário de Senador Canedo Samuel Carvalho (Republicanos), diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Pré-candidato a uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás, ele defende a criação de um programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA) elaborado especificamente para autistas e outros neurodivergentes.
“Nós precisamos corrigir esse gargalo, que transforma a população de neurodivergentes, na prática, em cidadãos de segunda classe, privados de educação formal por conta de deficiências no sistema educacional. Precisamos preparar mais profissionais de educação e elaborar todo um programa de educação de jovens e adultos voltado para as reais necessidades dessas pessoas”, avalia Samuel.
Para o pré-candidato, um programa educacional adequado pode transformar esse estrato da população goiana em um recurso humano de potencial formidável. “É sabido que uma das características dessa população são as habilidades especiais. Basta darmos o incentivo adequado para que essas pessoas altamente capazes possam ter uma vida normal. Eu sei porque essas dificuldades fazem parte da minha história. Sei do nível de dificuldades com que lidei e ainda lido para ter uma vida produtiva em nossa sociedade”, comenta o empresário.